22.3.06

Mulher Cigarra



Estava na vida cuidando das flores e plantas do meu pequenojardim, olhando os dias nascerem e morrerem, me encantando com o sol e a lua...
Estava na vida.
Vivia.
Estava na vida, vivendo pedaços importantes de mim.
Amiga, sempre dispunha de tempo e afeto para os amigos.
Mãe, sentia saudades do filho distante, gozava da esperança de poder sonhar sonhos com outro que voltara, ajudando-o a acreditar, e a realizar o que pretendia.
Cidadã, preocupava-me com a responsabilidade penal daquelesque praticam crimes hediondos, e se escudam na menoridade ou na loucura.
Dona de casa, cuidava de administrá-la para que tudo funcionasse a contento.
Estava na vida, não vivendo pedaço importante de mim.
Estava na vida, escrevendo sobre amor, fantasias, desejos...
Estava na vida, teorizando um pedaço importante de mim.
Senti um vazio...
Onde está a mulher?
Onde ficou?
Onde a perdi de mim?
Latente o desejo, latentes as fantasias, latente a vontade de ser.
Por que a aprisionei?
Ou será que simplesmente a esqueci?
Talvez desaprendi.
Só sei que a desencontrei.
Ela grita, querendo viver.
Eu finjo não ouvir ou entender.
Onde está minha Cigarra?
Estou sob o domínio da Formiga.
Armazenei os mais doces sentimentos.
Armazenei os carinhos mais ternos.
Armazenei o frisson dos sentidos.
Armazenei desejos puros.
Armazenei a vontade de dançar.
Armazenei os sonhos de voar em fantasias.
A mulher era uma Formiga cansada da lida, de simplesmente trabalhar lembranças.
A mulher era uma Formiga cansada de construir obstáculos, para evitar novos amores e dissabores.
A mulher era Formiga que colecionava livros, discos, amigos e escritos, para se aquecer no inverno da solidão.
A Cigarra queria espaço para o seu canto.
Timidamente cantarolou uma melodia simples.
A Formiga se irritou.
Como pode cantar, com tantas coisas a serem ainda construídas?
Calou-se a Cigarra, por mais um longo tempo.
Desesperadamente a Formiga escrevia e lia mais e mais.
Esqueceu de ouvir suas músicas prediletas.
Esqueceu de dançar suas músicas favoritas.
Esqueceu de caminhar na praia ouvindo o som do mar.
Pela primeira vez, sua vida não tinha fundo musical.
Insistente, a Cigarra ensaiou notas de outra suave melodia.
A Formiga fingiu-se surda, mas, no seu íntimo a música semeou inquietação.
Fez levantamento de tudo que armazenara para o inverno.
Surpreendeu-se com a qualidade e a quantidade: livros quel evaria mil invernos para ler, cds que precisaria de mil anos para ouvir, quadros e esculturas que precisaria mil estações para perceber em detalhes.
Lembrou-se dos amigos, dos lugares a serem descobertos e, finalmente, concluiu que não teria mil invernos para viver.
Dormiu Formiga, acordou Cigarra.
Vestiu sua pele de sol.
Enfeitou de estrelas, seu sorriso.
Perfumou-se com o aroma das poesias que amava.
Adoçou sua voz, com o mel das fantasias.
Usou as jóias dos sentimentos mais doces.
Calçou-se de coragem.
Usando a esperança como ferramenta, cortou todas as correntes.
Armou-se de alegria e derrubou os muros tão racionalmente construídos.
De Formiga, fez-se Cigarra.
Cigarra, libertou a mulher.
Mulher Cigarra, fez-se música, abriu o canto e foi cigarrear.
(Autoria desconhecida)