O PRAZER SAGRADO: SEXO, MITO E POLÍTICA DO CORPO
Riane Eisler
Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
"Na verdade, uma das diferenças mais dramáticas entre as imagens sagradas das sociedades primitivas, mais orientadas para a parceria, e muitas de nossas próprias imagens do sagrado têm relação com as questões básicas do corpo, dor e prazer. Se pararmos para examinar as imagens sagradas de nossa herança dominadora, veremos que enfocam muito menos o dar prazer do que o infligir dor - quer em batalhas entre as divindades do Olimpo, quer nas disputas sangrentas entre as deusas e deuses hindus, quer na crucificação de Cristo e nos martírios dos santos cristãos.
A sacralização da dor, ao invés do prazer, faz sentido de uma perspectiva política, já que essas imagens surgiram em sociedades nas quais o poder para dominar e destruir representa o sumo poder. Também faz sentido que neste tipo de sociedade as pessoas tenham sido frequentemente condicionadas a associar o prazer ao egoísmo e à insensibilidade, e até mesmo, a dominar e ser dominado - particularmente no caso do prazer sexual, ao sadismo e ao masoquismo, ao ferir e ser ferido.
Tudo isso me remete diretamente ao título deste livro, O prazer sagrado. À primeira vista, pode causar surpresa,ou até mesmo parecer sacrílego. Mas foi justamente por causa disso que o escolhi. Ou mais precisamente, enquanto minha consciência do prazer e do sagrado ia sendo profundamente alterada durante a escrita deste livro, a frase "prazer sagrado" foi se impondo como uma maneira de conceituar o prazer e o sagrado muito diferente de como aprendemos. Pois como a construção social do corpo e do poder é diferente em sociedades de dominação e de parceria - com o símbolo mais importante de poder nas últimas sendo o cálice que dá vida e ilumina, e não a espada ameaçadora e destruidora - também o é a construção social do prazer e do sagrado.
Desse modo, quando emprego a expressão "prazer sagrado", não me refiro de modo algum ao tipo de prazer "santo" em que homens e mulheres cristãos, durante a Idade Média, eram encorajados a acreditar, que se originava de torturas auto-impostas e maus-tratos aos seus corpos. Certamente não é o tipo de "prazer" que Freud diz aos homens derivar da humilhação e envilecimento das mulheres por meio da relação sexual, como quando afirmou que "assim que o objeto sexual cumpre a condição de ser degradado, o sentimento sensual pode ser desfrutado e uma considerável capacidade sexual e alto grau de prazer podem ser desenvolvidos". Tampouco é o tipo de "prazer" que as pessoas aprenderam como derivando do ridículo de outros sendo derrubados, tortas jogadas em suas caras, ou sendo humilhados e feridos de outras maneiras. Também não é o tipo de "prazer" que supostamente deriva das guerras vitoriosas, como quando os cristãos (ou muçulmanos) celebravam a matança dos infiéis em suas Cruzadas Santas ou, nos tempos de hoje, depois da Guerra do Golfo, quando os Estados Unidos se regozijaram - quase sem mencionar os milhares de iraquianos homens, mulheres e crianças mutilados ou mortos. Tampouco, de jeito algum, é a mesma visão do sagrado transmitida por milhares de representações religiosas da crueldade e sacrifício - do corpo humano perfurado, crucificado, incinerado, empalado e atormentado de outras maneiras terríveis - que até hoje enchem os museus e as igrejas.
(...)
Comecei a perceber que meus momentos espirituais mais importantes e experimentados mais profundamente - momentos em que senti mais intensamente essa reverência e admiração diante do mistério da vida - tinham sido possíveis não por causa do condicionamento social para associar o sagrado a uma entidade todo-poderosa, julgadora, e sim apesar dela. Também comecei a ver que desenvolvimento espiritual não era alguma coisa diferente e isolada dos prazeres terrenos, tais como o êxtase sexual e o toque amoroso - quer de uma criança, quer de um amante. Pelo contrário, comecei a compreender que essas experiências estavam no cerne de meu próprio desenvolvimento espiritual.
(...) descobri uma sacralização de tipo bem diferente: uma sacralização ajustada a uma visão de parceria, e não dominadora, do que é sagrado. Uma sacralização que é deste mundo, em vez de uma esfera além-túmulo, desencarnada - que deriva de uma reverência pela vida, não pelo que acontece após a morte ou antes do nascimento. É uma sacralização que não estabelece uma separação entre nós e o que chamamos de divino. Acima de tudo, não vê o carnal ou físico como inferior, e, portanto, sem importância, mas sim como uma parte essencial do que, em seu sentido fundamental, é sagrado.
Portanto, quando falo de uma espiritualidade de parceria, ao invés de dominadora, é no sentido holístico do termo, onde o que acontece nesta terra e no nosso corpo não está isolado do que chamamos de nosso ego superior.
(...)
A espiritualidade de parceria expressará a necessidade humana de conexão no sentido físico - como na união física com o ser amado - e o desejo de unidade com o que chamamos de divino.
Em lugar de apresentar o sofrimento como o caminho para a consciência superior, até mesmo como o atributo essencial de um salvador divino, se concentrará em mostrar como podemos atingir a consciência superior e, assim, a união com o que chamamos de divino, através da alegria, que foi concedida exclusiva e miraculosamente a nós, humanos experimentar no ato de amar e ser amados. Mas insisto em que não será um amor abstrato. Ne medida em que será uma espiritualidade que deriva de um senso da conexão, e não do desapego, será uma espiritualidade na qual o amor não é do outro mundo, mas deste mundo.
(p. 215 a 219)

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