Os Segredos Como Assassinos, colaboração de Simone Pompeo.

Oi gente, estava lendo ontem à noite um livro e achei que tem um pouco a ver com a situação da maioria aqui. O livro se chama "Mulheres que Correm com Lobos", de Clarissa Pinkola Estés. Ela é uma psicanalista junguiana que trata do resgate da auto-estima, da capacidade criativa e outras coisas a partir do arquétipo da mulher selvagem. É bem interessante. Ela propõe reflexões a partir de contos de fadas. O tópico vai ficar grande, mas vou transcrever um pequeno conto em um post. Tomara que vocês gostem.
Simone Pompeo, em 04/08/2005.
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A mulher dos cabelos de ouro
Era uma vez uma mulher lindíssima, mas muito estranha, de longos cabelos dourados, finos como fios de ouro. Ela era pobre e não tinha nem pai nem mãe. Morava sozinha no bosque e tecia num tear feito de galhos de nogueira-preta. Um brutamontes, que era filho do carvoeiro, tentou forçá-la a se casar com ele, e ela, numa tentativa em se livrar dele, lhe deu uma mecha de cabelos dourados.
Ele, no entanto, não sabia ou não se importou em saber se o ouro que ela lhe dera tinha valor monetários ou espiritual. Assim, quando ele tentou trocar o cabelo por mercadorias no mercado, as pessoas zombaram dele e o consideraram louco.Furioso, ele voltou à cabana da mulher, matou-a com suas próprias mãos e enterrou o corpo junto ao rio.
Por muito tempo, ninguém notou sua ausência. Ninguém perguntava por sua casa, ou por sua saúde. Na sua cova, porém, os cabelos dourados não paravam de crescer. A linda cabeleria abriu o solo negro para subir em curvas e espirais e foi crescendo cada vez mais, em arcos e volteios, crescendo até que sua cova se cobrisse de ondulantes juncos dourados.Uns pastores cortaram os juncos anelados para fazer flautas e, quando foram tocá-las, as flautinhas começaram a cantar sem parar:
Aqui jaz a mulher dos cabelos dourados
assassinada e enterrada,
morta pelo filho do carvoeiro
porque tinha vontade de viver.
E foi assim que o homem que havia tirado a vida da mulher dos cabelos dourados foi descoberto e levado à justiça para que quem vive nos bosques selvagens do mundo, como nós vivemos, pudesse mais uma vez estar em segurança.
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Fragmentos de interpretação
O texto da autora é longo e não dá pra transcrever tudo. Eis alguns trechos:
"(...) parte do milagre da psique selvagem reside no fato de que, não importa a profundidade da 'morte' da mulher, não importa a extensão dos danos, sua vida psíquica continua e surge a céu aberto, onde em circusntâncias de grande emoção ela acabará saindo sob a forma de canção. É então que o mal perpetrado é percebido pelo consciente, e a psique começa a recuperação... Essa força vital não deixará o assunto em paz até que sejam revelados o paradeiro e as circunstâncias."
"Embora alguns segredos sejam fortificantes, os segredos da vergonha são muito diferentes, tão diferentes quanto uma medalha adornada com fitas e uma faca ensangüentada. Esta última precisa ser trazida à superfície, testemunhada por pessoas compassivas sob condições generosas. Quando a mulher guarda um segredo vergonhoso, é apavorante ver a enorme quantidade de culpa e de tortura que ela impõe a si mesma. Toda a culpa e a tortura que ameaçavam se abater sobre a mulher se ela contar o segredo acaba se abatendo do mesmo jeito, apesar de ela não o ter revelado a ninguém. Tudo a ataca de dentro."
Segredos revelados
"Quando afinal o segredo se revela, a mulher precisa de uma resposta melhor do que 'Huuuummmm, é mesmo?', ou ' Pois é, a vida é dura'. É uma benção se quem ouve for uma pessoa que saiba escutar com o coração comovido e que possa se retrair, estremecer e sentir uma fisgada no coração sem perder o controle. Parte da cura de um segredo reside em contá-lo para que outros se comovam com ele. Dessa forma a mulher começa a se recuperar da vergonha ao receber o auxílio e o cuidado que lhe faltaram durante o drama original."
"Veja o que estiver vendo. Conte para alguém. Nunca é tarde demais. Se você achar que não consegue contar o segredo em voz alta, basta fazê-lo por escrito. Escolha uma pessoa que seus instintos julguem ser de confiança."
"Qualquer que seja o segredo, agora compreendemos que ele faz parte das nossas funções para o resto da vida. O ser resgate cura uma ferida que esteve aberta, mas mesmo assim ficará uma cicatriz. Com mudanças no tempo, a cicatriz poderá doer, e voltará a fazê-lo. Isso faz parte da natureza da verdadeira dor."
"A revelação e a dor nos permitem deixar par trás o culto fatal dos segredos. Podemos chorar e chorar muito e sair cobertas de lágrimas, mas não manchadas de vergonha. Podemos sair mais profundas, com o total reconhecimento de quem somos e plenas de uma nova vida."
"É bom lembrar que, em termos de resistência à tração e capacidade de absorver pressão, uma cicatriz é mais forte do que a pele."

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